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dezembro 31, 2003

Catarina Eufémia

Porque hoje se encerra mais um ano, na vida de Portugueses e Portuguesas.
Porque o ano que se avizinha, não promete nada de bom.
Pretendi prestar uma homenagem sincera, a todas as mulheres deste País, recordando uma lutadora, de sempre.

Catarina Eufémia Baleizão, filha de José Diogo Baleizão e de Maria Eufémia, nasceu na aldeia de Baleizão, concelho e distrito de Beja, em 1928. Era uma assalariada rural pobre e analfabeta, como tantas outras mulheres do seu Alentejo natal. Casou ainda nova, em 1946, tendo depois três filhos. A sua vida teria sido anónima e esquecida como a de tantos outros alentejanos da sua condição se não tivesse acabado em circunstâncias tenebrosas, guindando-a a símbolo da resistência e contestação ao regime salazarista.
O Alentejo, naqueles tempos difíceis, era uma região de latifúndios e de emprego sazonal, onde as condições de vida dos camponeses sem terras e assalariados eram extremamente difíceis. Esta situação sócio-económica e laboral penosa e dura agitou as massas camponesas da região a partir de meados dos anos 40, vindo-se a agudizar nas duas décadas seguintes, gerando-se uma permanente clima de agitação social no campesinato. Eram inúmeros tumultos e mais frequentes ainda as greves rurais, que acabavam sempre com a intervenção da GNR e eram devidamente vigiadas pela PIDE, em busca então de infiltrados e agitadores comunistas.
Numa dessas greves de trabalhadores agrícolas, ocorrida em 19 de Maio de 1954 na aldeia de Baleizão, um grupo de camponeses dirigiu-se à residência do patrão. Entre esses trabalhadores rurais, contava-se Catarina Eufémia, grávida e com um filho de oito meses o colo. Entre outras pretensões, reivindicava-se para as mulheres um aumento da jorna (salário de um dia de trabalho) de 16 para 23 escudos, na campanha da ceifa. No entanto, a GNR apareceu, como tantas outras vezes, acabando por intervir duramente. Para além dos tiros para o ar, de intimidação e para dispersar a concentração de camponeses, outros houve que tiveram um destino mais cruel e sangrento. De facto, o tenente Carrajola, da GNR, no caminho do grupo de assalariados para a casa do patrão, matara Catarina Eufémia com vários tiros, que caíra para o chão com o filho ao colo. Este assassinato a sangue-frio foi uma das mais brutais acções do regime de Salazar, causando uma revolta surda e contida entre as massas rurais alentejanas.
Catarina tornou-se, depois da sua morte trágica, como um símbolo, principalmente entre o Partido Comunista Português, como um modelo de mulher, mãe e militante. Muitas vezes se lhe jurou vingança, tal foi a raiva de dor que pulsou durante décadas no Alentejo por aquel morte estúpida e cruel, aparecendo também flores na campa de Catarina, no cemitério de Quintos, depositadas por desconhecidos. Os cantores de intervenção e os poetas opositores ao regime não deixaram também de cantar a pobre camponesa assassinada: José Afonso, Sophia de Mello Breyner ou José Carlos Ary dos Santos, entre outros. No imaginário popular e oposicionista, o assassinato de Catarina Eufémia era a demonstração clara da crueldade e brutalidade dos métodos e formas de resposta por parte do regime às desigualdades e injustiças que apoiava e mantinha.

© 2001 Porto Editora, Lda.

Publicado por José Gonçalves às dezembro 31, 2003 10:58 PM

Comentários

Os olhos dos camponeses
São fogos na madrugada
Mal o seu corpo tombou
A noite ficou cerrada

Tiros soaram ao longe
No silêncio da campina
Rosa de sangue britou
Dos seios de Catarina.

Maduro se faz o trigo
Em terra sem ser regado
Quem no sangue semeou
Há-de colher uma espada.

Os olhos dos camponeses
São fogos na madrugada.

A. F. Guedes

Um abração do
Zecatelhado

Publicado por: Zecatelhado às dezembro 31, 2003 11:21 PM

Vim a descobrir só agora k catarina eufemia é minha prima avó....Depois de a minha avó falar sobre o acontecimento de 19 de maio de 1954.dizendo k viu com os ceus propios olhos sua prima encharcare-s de sangue com um filho no ventre.... tenho procurado muito sobre catarina e o mais importante para mimé saber k o sangue da corageme de luta esta um pouco nas minhas veias e orgulho-m da sua coragem e despreso a ignorancia dakeles k a maltrataram e a mataram...


Para sempre Catarina Eufemia

Publicado por: Patricia marques às junho 20, 2004 10:29 PM

Recordo-me muito bem de ter ido à vila alentejana de Baleizão, pouco tempo após o 25 de Abril de 1974, honrar a memóra da lutadora anti-fascia de seu nome Catarina Eufémia.

4 de Agosto de 2004

Fernando justino

Publicado por: FERNANDO JUSTINO às agosto 4, 2004 04:29 PM

Recordo-me muito bem de ter ido com alguns amigos meus (nomeadamente o meu irmão) à vila alentejana de Baleizão, pouco tempo após o 25 de Abril de 1974, honrar a memóra da lutadora anti-fascista de seu nome Catarina Eufémia.

4 de Agosto de 2004

Fernando Justino

Publicado por: FERNANDO JUSTINO às agosto 4, 2004 04:31 PM