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novembro 06, 2005

ADEUS JOÃO PAULO

Sabes João Paulo, sempre tive a noção que eras um homem de coragem, trabalhador insaciável e sempre mal remunerado, pouco instruído, mas amigo da família por quem tudo entregavas.
A tua companheira de sempre, a minha mãe, partiu há cinco anos e tu ficaste mais teimoso, fechaste-te na tua concha o teu quarto, dias e noites revivendo o passado e as saudades daquela mulher que sempre contigo comungou as agruras de uma vivência muito difícil. Bem sei que outros ventos sopraram, é verdade já eras velho, mas não o suficiente que te limitasse os movimentos para acompanhares o crescimento dos teus netos, hoje homens e mulheres.
Sabes, poucas vezes te vi chorar e recordo há cinco anos, como os teus olhos tremeram alagados de uma dor que ninguém compreenderá nunca. Como me olhastes e perguntaste “o que fico cá a fazer?”.
Hoje não consigo alijar as minhas próprias culpas, por não te ter forçado a sair da tua concha, de não te ter obrigado a um quotidiano diferente.
Há dias, quando te vi pela penúltima vez, lutavas contra a morte, esbracejavas quase sem força tentando afastá-la, tive a noção que perante a tua consciência desfilava num tropel grotesco toda a tua vida. Chorei também perante a minha insignificância por não te poder valer. Bem sabes que não sou dado a coisas etéreas, mas gritei para o meu peito, deixa-o! Tu que o puxas vai-te.
Debilitado regressaste do hospital menos trémulo, menos atento aos pormenores, com a morte no olhar, apenas adiada.
A última vez que nos vimos, já pouco de mim recordavas, apenas aquela leve carícia que trocámos me recordou cumplicidades antigas e quero acreditar que um leve brilho te surgiu no olhar.
É irrelevante contudo, partes de consciência tranquila porque destes tudo o que pudeste aos teus filhos, são eles que podem ter algum peso na consciência por ignorarem a dívida nunca saldada.
Hoje partiste, não cheguei a tempo de te olhar, não me despedi de ti.
Nunca mais ralharás comigo, nem eu contigo, nunca mais levarás os netos às cavalitas nem eu te levarei a conhecer outras terras.
Nestes momentos, acabamos por derrubar os muros que fomos construindo ao longo da vida. E do fundo do coração te desejo, que reencontres, se isso for de facto possível, lá não sei bem onde, a tua companheira de sempre.
Adeus Pai!

Publicado por José Gonçalves2 às novembro 6, 2005 10:36 PM

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Comentários

Amigo, aceite a minha mais profunda e sincera solidariedade.
Um abraço da Fundação Canzoada

Publicado por: canzoada às novembro 6, 2005 11:22 PM

Caro José, o meu abraço de amizade, de solidariedade, e de profunda comunhão neste momento.

Publicado por: Golfinho às novembro 7, 2005 12:01 AM

O que é que se diz nestas horas?... A confissão de que as sua palavras sentidas me tocaram fundo e que os fiquei a conhecer melhor, a si, e ao seu pai... Em termos literários, esta foi das coisas bonitas que tenho lido.

A minha mais profunda e sincera solidariedade.

Um abraço,
Francisco Nunes (Planície Heróica)

Publicado por: Planície Heróica às novembro 7, 2005 12:13 AM

Os meus sentimentos.
Já passámos pelos mesmo, e sentimos essa dor da impotência, esse momento de maior respeito e carinho pelos que nos deram vida sem podermos manter a deles.
Um abraço amigo.

Publicado por: João Norte às novembro 7, 2005 09:10 AM

Caro J Gonçalves
já tinha comentado no outro blog, mas não consegui.
Mas, o que pretendo repetir é que a maior fortuna é essa mesmo, a dos mais queridos. Passei pelo mesmo faz pouco tempo e não se esquece nunca. De vez em quando vem a dor...quase todos os dias.
um abraço e força, apesar de tudo...

Publicado por: hammer às novembro 8, 2005 09:18 PM

Caro J Gonçalves,

Desde já os meus sinceros pesâmes. Os meus pais estão cá mas senti o mesmo há pouco tempo com a minha avó. O meu avô já partiu e nem quero imaginar quando for a hora dos meus pais... Tenta recordar-te dos bons tempo que passas-te com eles e ver que sempre os apoias-te nas horas em que eles precisaram. Deste o teu carinho e a tua generosidades aos teus pais e e certamente os mimaste quando eles mais precisaram. Todos nós iremos falecer um dia mas acredito que nos iremos reencontrar todos no reino dos céus. Não sei se é católico ou não mas certamente há algo acima de nós que nos transcende. Acredite que um dia os irá ver novamente e não os perderá certamente de vista! Um grande abraço e até sempre cibernáuticamente!
Eu faço parte de um blog mas éumblog jovem sobre política. Sei que é de esquerda e ainda bem! Ássim poderemos trocar impressões!
Se puder ver ficaria satisfeito! O meu "nick" no blog é undertaker alusivo ao "wrestling"
Fique bem J. Gonçalves e tudo de bom para si e para os seus
http://www.direitaporlinhastortas.blogspot.com/

Publicado por: Jorge Passeira às abril 4, 2006 02:11 AM