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novembro 09, 2005

NOVA MORADA DO AUTOR.

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OBRIGADO

Publicado por José Gonçalves2 às 08:27 PM | Comentários (0) | TrackBack

novembro 06, 2005

ADEUS JOÃO PAULO

Sabes João Paulo, sempre tive a noção que eras um homem de coragem, trabalhador insaciável e sempre mal remunerado, pouco instruído, mas amigo da família por quem tudo entregavas.
A tua companheira de sempre, a minha mãe, partiu há cinco anos e tu ficaste mais teimoso, fechaste-te na tua concha o teu quarto, dias e noites revivendo o passado e as saudades daquela mulher que sempre contigo comungou as agruras de uma vivência muito difícil. Bem sei que outros ventos sopraram, é verdade já eras velho, mas não o suficiente que te limitasse os movimentos para acompanhares o crescimento dos teus netos, hoje homens e mulheres.
Sabes, poucas vezes te vi chorar e recordo há cinco anos, como os teus olhos tremeram alagados de uma dor que ninguém compreenderá nunca. Como me olhastes e perguntaste “o que fico cá a fazer?”.
Hoje não consigo alijar as minhas próprias culpas, por não te ter forçado a sair da tua concha, de não te ter obrigado a um quotidiano diferente.
Há dias, quando te vi pela penúltima vez, lutavas contra a morte, esbracejavas quase sem força tentando afastá-la, tive a noção que perante a tua consciência desfilava num tropel grotesco toda a tua vida. Chorei também perante a minha insignificância por não te poder valer. Bem sabes que não sou dado a coisas etéreas, mas gritei para o meu peito, deixa-o! Tu que o puxas vai-te.
Debilitado regressaste do hospital menos trémulo, menos atento aos pormenores, com a morte no olhar, apenas adiada.
A última vez que nos vimos, já pouco de mim recordavas, apenas aquela leve carícia que trocámos me recordou cumplicidades antigas e quero acreditar que um leve brilho te surgiu no olhar.
É irrelevante contudo, partes de consciência tranquila porque destes tudo o que pudeste aos teus filhos, são eles que podem ter algum peso na consciência por ignorarem a dívida nunca saldada.
Hoje partiste, não cheguei a tempo de te olhar, não me despedi de ti.
Nunca mais ralharás comigo, nem eu contigo, nunca mais levarás os netos às cavalitas nem eu te levarei a conhecer outras terras.
Nestes momentos, acabamos por derrubar os muros que fomos construindo ao longo da vida. E do fundo do coração te desejo, que reencontres, se isso for de facto possível, lá não sei bem onde, a tua companheira de sempre.
Adeus Pai!

Publicado por José Gonçalves2 às 10:36 PM | Comentários (6) | TrackBack